Quando podia não me apetecia, agora que me apetece, nunca posso. E a minha frustração acanha-se perante o meu ainda inconsequente hábito de comprar colecções interessantes, que apenas gozo pelo bom aspecto da ordenação que dão numa estante. Lá estão o Sócrates e Platão, Aristóteles, Séneca, São Tomás de Aquino entre o Santo Agostinho e o Descartes. E por aí adiante até aos menos clássicos Sartre e Lévi-Strauss. E todos me esperam.
Hoje a inteligência de uma citação de um clássico é relativa. Há livros só de citações e muitos usam-nos como um manual. Basta que, mesmo desconhecendo o contexto em que cada uma delas foi dita, usemos aquelas que nos transmitem maior confiança. É a vantagem das citações. Podem ser usadas em qualquer circunstância desde que a ideia que reforçamos com o seu uso não seja muito disparatada.
Julgo que é o caso da que vou usar, atribuída a Platão. Diz-se que disse que não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, porque simplesmente serão governados por aqueles que gostam.
Quando a li pela primeira vez pareceu-me uma sentença do género “cada um tem aquilo que merece”. Hoje soa-me mais a aviso.
A desculpa de muitos que conheço para a não participação aponta para o desgosto nos partidos políticos e na falta de modelos nos políticos. É a que me dão e que me custa a aceitar. Mesmo aceitando que os partidos políticos dizem pouco a dois terços da sociedade, o facto só nos responsabiliza ainda mais.
Porque os partidos políticos são como diz João Nogueira dos Santos, a organização da vontade política dos cidadãos. Nele todos podem participar, intervir e votar expressando as suas ideias, questionando e elegendo os seus líderes e definindo assim os partidos que querem ter.
Partidos com pouca participação perdem qualidade e estão entregues a coligações de interesses particulares pouco preocupados com interesse público. E em vez de decidirmos por nós deixamo-nos arrastar neste ciclo vicioso e conformamo-nos com o queixume e com a nossa desresponsabilização no problema.
Pedro Magalhães, um politólogo com quarenta anos, acredita que esta geração, que é também a minha, tem a obrigação de não se deixar enganar pelos políticos que tem, porque tem informação e formação como nenhuma outra teve e pode ser mais exigente. Comecemos então com uma auto-crítica. Em vez de um “eu” e de um “eles”, parece-me mais acertado um “nós". E um “nós” pode mudar um partido.
Como cidadãos plenos podemos mudar uma cidade. Se podemos mudar uma cidade podemos mudar uma região. Se podemos mudar uma região, podemos mudar um país e se podemos mudar um país, podemos mudar o mundo. Só para citar Obama, que conheço bem melhor que os Clássicos.
A questão é quantos estão para se dar ao trabalho?
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Toca a sair do quentinho e ir colocar o Coelho na cartola!
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